É simples assim: andando de elefante você corrobora com uma das atrações turísticas mais cruéis do mundo.

Onde ver elefantes na Tailândia: é polêmico dizer, porque eles vivem uma situação delicada. Um dos maiores símbolos do país, os elefantes são usados pela população há mais 4 mil anos pra trabalho, guerras e transporte – você verá desenhos deles talhados em templos antigos de Ayutthaya e Sukhothai. Essa relação milenar pode dar a impressão de que “ah, eles são domesticados, então tudo bem”. Não. De acordo com a ONG britânica World Animal Foundation, o processo de domesticação cria animais que diferem de seus respectivos selvagens, passando por pelo menos 12 gerações de reprodução seletiva guiada pelo homem. Isso nunca aconteceu com os elefantes; mesmo em cativeiro eles continuam animais selvagens. Além disso, 75% dos elefantes adultos usados hoje no turismo foram tirados da natureza.

No começo do século XX, estima-se que viviam mais de 100 000 elefantes no país. Hoje são cerca de 2500 na natureza e 3500 em cativeiro, efeito da destruição de seus habitats naturais, matanças e maus-tratos. Até 1989, os elefantes eram usados em madeireiras arrastando os trocos das árvores cortadas. Com a proibição, donos de elefantes sem renda migraram para o entretenimento ou foram pedir esmolas com os bichos nas ruas de Bangkok (hoje esta prática também foi banida).

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Não importa se nasceram em cativeiro ou se foram tirados da natureza, os elefantes usados para passeios, shows e selfies sempre serão animais silvestres: todos sofrem quebra de seu espírito selvagem de modo cruel. Seu treinamento envolve atá-los com cordas ou correntes, ameaçá-los com ganchos pontiagudos, varas, chicotes e fazê-los passar fome e sede. Como normalmente recebem poucos cuidados veterinários, doenças relativamente sem importância fazem-nos sofrer muito.

De acordo com uma pesquisa feita pela World Animal Foundation, cerca de 1300 elefantes na Tailândia vivem sob condições terríveis, o que inclui dormir na beira de estradas, ficar acorrentado a maior parte do dia, não ter acesso a comida adequada e nem cuidado médico, viver sozinho, ser obrigado a participar de shows circenses e jornadas de trabalho intensivas levando gente nas costas. Em abril de 2016, um elefante morreu no Camboja após carregar um turista. Em fevereiro, um turista foi morto por um elefante – o estresse causa comportamentos agressivos; desde 2014 pelo menos 5 turistas foram mortos por elefantes na Tailândia. Até agora não há grande esforços das autoridades locais para melhorar a qualidade de vida dos animais. Falta de leis apropriadas para protegê-los e impedir o tráfico e um sistema de registro de animais em cativeiro precário agravam o problema. Ah, sim, por causa da indústria do turismo, um filhote de elefante pode valer até US$ 60 mil, o que incentiva a caça ilegal.

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ONDE VER ELEFANTES NA TAILÂNDIA:

(DE UMA FORMA ÉTICA)

Há alguns poucos santuários que cuidam de elefantes resgatados de maus-tratos e permitem experiências éticas com os animais. Pra um lugar ser considerado ético, os elefantes devem ser livres pra comer e beber, viver sem desconforto, de dor, lesões e doenças; poder manifestar seu comportamento natural e não sofrer medo e angústia desnecessários. Eles devem viver soltos, em grupos, ter acesso fácil à água e tratamento veterinário adequado. O lugar não deve permitir passeios nas costas deles e sediar shows. No máximo, turistas podem alimentá-los com frutas e brincar com eles na água.

Com os viajantes criando uma maior conscientização acerca do problema, muitos centros de elefantes se disfarçam de santuários e têm folhetos prometendo um jardim do éden para os bichos, principalmente em Chiang Mai – você vai ver no seu hotel. Desconfie. Pesquise com afinco antes de contratar qualquer coisa.

Elephant Nature Park, Chiang Mai

Onde ver elefantes na Tailândia: pioneiro centro de reabilitação pra elefantes no país, oferece passeios de um dia por cerca de US$ 80 com transporte (eles te pegam no seu hotel em Chiang Mai) e almoço. O lugar é bonito, com um rio e 100 hectares de vegetação nativa. No tour você pode ver elefantes, aprender sobre suas histórias (alguns têm mais de 70 anos!), brincar na água com eles e dar comida na tromba. É simplesmente emocionante passar o tempo observando-os de tão perto. Peça para o seu hotel fazer a reserva (não precisa antecedência).

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Boon Lott’s Elephant Sanctuary (BLES), Sukhothai

Foi fundado pela britânica Briton Katherine Connor, reconhecida pela International Fund for Animal Welfare por seu trabalho com elefantes. Pela localização afastada – fica na vila de Baan Tuek, a uma hora de Sukhothai –, ele não recebe visitantes bate-volta. É um esquema meio caro, porque você precisa dormir pelo menos uma noite – a diária custa 5000 bath por pessoa (cerca de US$ 140), e inclui transporte, todas as refeições e atividades. Lá você pode ver elefantes, caminhar junto eles pela floresta, dar banho, ajudar na coleta da comida e na manutenção do lugar – a grana toda é arrecada pra melhorar a vida dos bichões. Pra reservar mande um email para [email protected]

ONDE VER ELEFANTES NA TAILÂNDIA:

(DE UMA FORMA ÉTICA)

ElephantsWorld, Kanchanaburi

Onde ver elefantes na Tailândia: ONG de um veterinário tailandês, é uma versão mais modesta do Elephant Nature Park em Chiang Mai. Com o lema “nós trabalhamos para os elefantes, eles não trabalham pra gente”, a ideia é que você contribua com a manutenção do lugar, ajudando a plantar e preparar comida para os animais, dar banho e caminhar com eles na floresta. Há tours de um dia pra ver elefantes por US$ 70, dois por US$ 128 e sete dias por US$ 500, com transporte (eles te pegam no seu hotel em Kanchanaburi), comida e atividades já inclusas no valor.

Wildlife Friends Foundation, Petchaburi

Este santuário ensina sobre medidas de conservação e depois permite ver elefantes, passear pelo parque e dar banho neles. Também pode-se conhecer outros animais resgatados (ursos, macacos) e participar de programas de voluntariado. A experiência de um dia custa US$ 45 (com almoço). Eles podem buscar na cidade litorânea de Hua Hin, Cha-Am (US$ 5) ou Bangkok (US$ 60), a 160 km de lá – pode valer a pena ir de Bangkok a Hua Hin de ônibus e aí pedir o transporte deles.

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Betina Neves

Seus 10 anos de experiência escrevendo sobre turismo deram o tom da linguagem do Carpe Mundi. Perita em traçar roteiros e na eterna busca pela passagem aérea mais barata, escreve um e outro post por aqui enquanto explora metrópoles insones, prova comidas exóticas e relaxa em praias vazias deste mundão.

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