Ler é viajar sem sair do lugar

Eu não me lembro o momento exato em que me apaixonei pela leitura. Quando vi, já estava devorando livro depois de livro, colecionando edições especiais e compartilhando referências com amigos. De repente, me vi explorando a Bahia de Jorge Amado em Gabriela, Cravo e Canela, a Budapeste de Chico Buarque e até mesmo a Noruega de O mundo de Sofia.

Foi assim que descobri como ler pode significar, também, viajar. Mesmo sem sair do lugar. 

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Agora, mais do que nunca, os livros têm sido fiéis companheiros para mim. Em situação de pandemia e sem perspectivas de poder viajar, conheci Londres pelos olhos de Tess e Gus em O primeiro dia do resto da nossa vida e visitei Hamburgo em Your Perfect Year. Sem precisar de passagem aérea ou de reserva em hotel. Apenas uma poltrona confortável e um chocolate quente na mão. Ok, talvez só uma garrafa de água, mas chocolate quente soa mais bonito. 

Na minha opinião, esse é um dos maiores poderes da leitura: abrindo as páginas de um livro (ou ligando o Kindle) somos transportados para novos lugares. Afinal, nem sempre podemos viajar, seja por condições financeiras, por motivos pessoais ou por fatores externos, como o coronavírus disseminado pelo mundo.

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Deitada no conforto do meu quarto, já fiquei até 4 horas da manhã lendo porque estava imersa demais na história – e olha que eu sou a pessoa que dorme super cedo. Já li um livro por 3 horas seguidas porque largar a narrativa era simplesmente incogitável.

O poder da leitura em nos fazer viajar através das páginas é tão intenso que conseguimos imaginar mundos fictícios inteiros a partir das descrições dos autores. Para citar alguns que já conheci: a distópica Panem de Jogos Vorazes e o mundo olimpiano de Percy Jackson (a primeira saga que li). Ou, mais recentemente, a assustadora Gilead de O Conto da Aia

Para conhecer com detalhes um destino que nunca visitei, eu poderia recorrer a vídeos no Youtube, câmeras ao vivo ao redor do mundo, filmes e documentários. Mas acredito que a leitura é uma experiência muito mais imersiva, que me permite mais subjetividade. Ninguém enxerga a Nigéria de Americanah do mesmo jeito ao ler as palavras de Chimamanda Adichie. Há livros com milhares de exemplares em diversos países e, ainda assim, cada leitor acrescenta a sua própria personalidade à leitura.

A leitura também me fez redescobrir viagens já feitas e explorar novas perspectivas. Eu não conheci a mesma Nova York que os jornalistas da Globo retratam no livro Correspondentes, mas foi lendo seus relatos que pude enxergar a Big Apple por outra lente. A Itália de Amor & Gelato é outra e agora não vejo a hora de voltar para conhecê-la do jeito que Jenna Evans Welch me apresentou. 

Ler é viajar sem sair do lugar e é compreender sem exatamente vivenciar. Os Estados Unidos poderiam ser, na minha cabeça, apenas o mundo encantado da Disney ou a diversão de Las Vegas. Mas foi lendo O ódio que você semeia e As estrelas sob nossos pés que ampliei minha compreensão sobre as mazelas sociais e sobre o racismo no país. Assim como foi em Prisioneiras e Presos que menstruam que entendi uma realidade tão distante da minha – a das presidiárias em São Paulo –, e que se passa a uma curta distância de onde eu moro. 

Nem sempre a leitura me transporta para lugares e situações legais. Na verdade, às vezes, ela me leva para contextos tristes e desesperançosos. Foi assim em Quarto de despejo, em que fiquei o livro todo com uma angústia na garganta ao ler as palavras de Carolina Maria de Jesus. Ou, ainda, em Rota 66, livro reportagem de Caco Barcellos que me fez evitar temas pesados durante várias semanas. Ainda assim, esses livros foram importantes para mim, para que eu entendesse que o Brasil é sim um lugar de destinos incríveis, de cachoeiras e praias, mas é também um país marcado por desigualdade social e corrupção

Os livros plantaram em mim uma sementinha cosmopolita, viajante, exploradora, curiosa. De entender mesmo minha cidade, país, o mundo. Tenho na cabeça mil ideias de viagens a serem feitas, inspiradas pelas minhas leituras. Ainda quero visitar a Inglaterra de Agatha Christie e a Colômbia de García Márquez, apesar de sentir que já pude conhecê-las pelas palavras desses escritores incríveis. Afinal, ler é viajar sem sair do lugar. 

Vivo ansiando pela próxima viagem, pelo próximo livro e, é claro, pelas próximas aventuras. E algumas delas estão a poucos passos de distância, na minha estante. 

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Maria Eduarda Nogueira

Comunicadora por paixão, vive em busca de conteúdos digitais autênticos. Viagens são sua forma preferida de consumir cultura. Fã de espaços urbanos, tem em cafés e livrarias mundo afora seus lugares preferidos, sempre com um chocolate quente em mãos.

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