LIÇÕES QUE VIAJAR PODE ENSINAR

Depois de zanzar por mais de 30 países por curtos e longos períodos, identifico uma série de pequenas e grandes lições que viajar pode ensinar que fui assimilando, pela dor ou pelo amor, pela vontade ou pela necessidade.

Acho que toda jornada exterior pode ser um símbolo da nossa jornada interior, do nosso processo de autoconhecimento, e também da compreensão sobre o mundo que nos rodeia.

Minhas viagens me ofereceram inúmeras oportunidades de novas percepções e também me expuseram ao risco da desorientação, do incerto, do inesperado. Me convidaram ao envolvimento com o outro, ao enfrentamento de desafios e à reflexão sobre como eu me apresento em ambientes desconhecidos. E permitiram que eu identificasse a essência humana que predomina não importa aonde se vá (para o bem e para o mau) e percebesse os efeitos nocivos do sistema vigente que afetam cada pedacinho desse planeta (incluindo os problemas da própria indústria do turismo).

Não acho que para tirar lições das viagens temos que sair em longos períodos sabáticos. Claro que na minha viagem de 8 meses pela Europa e pela Ásia a coisa foi mais intensa, mas também aprendi à beça em um rolê de uma semana que fiz com 19 anos, sozinha, no Ceará.

O que conta para que a viagem seja mais edificante é nossa consciência ao partir, é a intenção que colocamos na jornada. E também, acredito, o destino escolhido.

Hoje eu procuro principalmente viagens que me tragam conexão com a natureza e experiências com olhares de outros grupos e povos (desse e de outros tempos), e tento fazer isso de maneira mais sustentável do que já fiz um dia. E que, de alguma fora, me façam vislumbrar outras possibilidades de existir, individual e coletivamente.

110 lições que viajar pode ensinar

A superar o medo do incerto

Se você se propor a isso, viajar pode ajudar a largar mão do lugar confortável de sempre e se abrir ao desconhecido, ao novo, ao que não é sabido. É uma metáfora muito óbvia para o que é a vida de verdade: impermanente, instável, não linear, em constante movimento. É um baita ensinamento para transformar nossa atitude no dia a dia, quando muitas vezes nos apegamos a pequenas certezas e temos medo de dar passos no escuro.
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A lidar com o inesperado

Choveu no dia de ir pra praia, o ônibus quebrou, o voo atrasou, deu briga com o amigo com quem a gente está viajando, comemos um troço que nos fez passar mal: lidar com pequenos imprevistos de viagem nos traz mais flexibilidade e jogo de cintura para enfrentar o que não podemos controlar. E o inesperado vem para o bem, também: um arco-íris que aparece depois da chuva, uma pessoa incrível que conhecemos na rua, um festival que está acontecendo bem no dia em que você chega em determinada cidade. Quando a gente aceita não saber o que vem por aí, coisas lindas podem acontecer.

A viver o que é de verdade, e não as nossas expectativas

Muitas vezes esperamos uma coisa de uma viagem e no fim temos uma experiência totalmente diferente, com toda dor e delícia que isso pode envolver. E aí temos que nos contentar com o que é real, com o que realmente vivemos ali, e desapegar do que a gente achava que ia ser. Viajar convida a se entregar à imperfeição: de nós mesmos, do lugar onde vamos, da jornada em si.

A se entregar ao momento presente

Quem já não teve aquela sensação de que a viagem passa num sopro? Que aqueles dias (ou meses) que você tanto antecipou, de repente, chegaram ao fim? Viajar traz consciência sobre a importância de se ancorar no aqui e no agora, de abrir os olhos para o instante em que se está; se não, ele passa rapidinho. E é no presente que a viagem (e a vida) acontece. É na observação e na contemplação atenta daquela praia, daquele museu, daquela cidade, que se absorve a energia do lugar.

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A recuperar a capacidade de se deslumbrar

É nesse lugar que a viagem nos coloca (e que a gente pode se colocar durante a viagem) de abertura para o novo, de presença, de encarar o desconhecido com curiosidade, que a gente recupera a capacidade de se deslumbrar – com um pôr do sol, diante de um monumento famoso, num show de música, numa cachoeira, que seja. A viagem alimenta a alma e os sentidos com novos estímulos. E, se a gente for esperto, a gente pode trazer essa consciência de volta pra casa.

A refletir sobre si mesmo fora do ambiente conhecido

Lições que viajar pode ensinar: como eu me comporto em um ambiente novo? O que eu levo comigo de casa? E que parte nova e até desconhecida de mim eu mostro ali? Que máscaras eu posso deixar cair? Talvez as viagens solo sejam as mais profundas nesse sentido de se descobrir sem ter ninguém conhecido por perto.
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A aceitar e respeitar o outro

Seja nosso companheiro de viagem, sejam as pessoas que a gente encontra em todas as partes da jornada, independente de que relação estabelecemos com elas, viajar é um convite pra renovar o olhar diante do outro, do diferente de mim. Uma oportunidade para dissolver estereótipos, compreender diferenças e identificar a essência humana que prevalece em todo lugar (para o bem e para o mal).
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A observar os efeitos da globalização e do sistema em outros lugares do mundo

Por um lado, muita coisa é diferente. Por outro, onde quer que se vá, tem muito mais do mesmo: desigualdade social, poluição, consumismo desenfreado, degradação da natureza, violência com as pessoas e os animais. Viajar deixa evidente a necessidade de transformação individual e coletiva que a gente precisa para continuar a habitar esse planeta. Até porque a própria indústria do turismo é extremamente problemática.
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A assimilar que o que conta é a jornada, e não o destino

Eis uma coisa que todo mundo repete mas pouca gente consegue viver na prática: esse entendimento de que a graça da vida está no caminho, de que não tem linha de chegada, de que é preciso curtir o processo porque o processo é tudo o que temos. E na viagem o que importa é, obviamente, a viagem, e não a chegada, porque a chegada é um retorno para onde começamos. Das mais valiosas lições que viajar pode ensinar.

A enxergar outras possibilidades de caminhos para a vida

Não alimento a ideia de que viajar seja o único caminho possível para lidar com crises existenciais, até porque poder viajar ainda é um enorme privilégio. Mas a viagem pode ser sim uma oportunidade de sair do lugar conhecido para arejar a cabeça e se abrir para novas perspectivas de como organizar a vida. Viajar me lembra da liberdade que temos e muitas vezes não exercemos de transformar nossa própria realidade.

Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

Rubem Alves

Betina Neves

A jornalista é perita em traçar roteiros e vive na eterna busca pela passagem aérea mais barata. Escreve um e outro post por aqui enquanto explora o mundo dentro e fora de si. Pode ser encontrada em cachoeiras na Chapada dos Veadeiros, retiros budistas na Tailândia e montanhas na Califórnia.

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