Viagem sustentável:

O turismo é estereotipicamente representado como uma atividade “good vibes only”, povoada por imagens paradisíacas, intercâmbios culturais e experiências inesquecíveis. Isso acabada maquiando uma indústria que movimenta trilhões e têm muitos impactos negativos no mundo, social, econômica e culturalmente. 

Degradação de ecossistemas frágeis, aumento da geração de lixo, apagamento de identidade cultural e atividades de comunidades tradicionais são só alguns deles. Principalmente em países em desenvolvimento, o turismo não traz necessariamente progresso para as comunidades locais e acaba mexendo com a dinâmica dos lugares de maneira prejudicial. Apesar da oferta de empregos, a renda gerada pelo turismo é muitas vezes concentrada nas mãos de grandes empresários do mercado com interesses alheios ao desenvolvimento das populações dos destinos. Os efeitos maléficos do turismo também são visíveis na Europa, Estados Unidos e Austrália, claro, mas é no mundo em desenvolvimento, onde muitas vezes acontece de maneira mais predatória e massificada, que a coisa preocupa mais.

Na lista abaixo, elencamos pequenas ações pra ajudar a ter uma viagem sustentável – não é possível fazer uma viagem totalmente sustentável, assim como não é possível existir de maneira totalmente sustentável, como nos explica Ailton Krenak. Mas, se você tem repensado seu consumo e seu lixo na vida cotidiana, saiba que é preciso aplicar essa lógica às suas férias também. E, sim, viajar com esse tipo de consciência dá mais trabalho na pesquisa e organização.

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Viagem sustentável: 9 jeitos de diminuir o seu impacto

Informe-se em relação aos problemas

O primeiro passo para mudar de atitude é tomar consciência do problema. Muitas matérias, livros e documentários das últimas três décadas têm se dedicado a investigar os efeitos nocivos da indústria do turismo pelo mundo.

Deixamos aqui algumas indicações para quem quiser se debruçar sobre o tema:
O turismo pode estar fazendo muito mal ao mundo, saiba o por quê – post simples com um apanhadão sobre o tema.
Caraíva além da foto perfeita: destino da moda sofre com lixo e descaso – sobre os efeitos do turismo em Caraíva (BA).
‘Não existe turismo sustentável no Brasil’ – entrevista com a pesquisadora Laura Sinay.
Alter do Chão: Paraíso em disputa – episódio do podcast Mamilos sobre os efeitos do turismo em Alter do Chão.
Gringo Trails documentário sobre o impacto do turismo mochileiro em países em desenvolvimento.
The Venice Syndrome – sobre a descaracterização de Veneza por causa do turismo.
Overbooked: The Exploding Business of Travel and Tourism – livro da americana  Elizabeth Becker.
Bye Bye Barcelona documentário que fala do impacto do turismo em Barcelona.
Done Bali – documentário sobre os efeitos do turismo de massa em Bali (é de 1992, imagine se fosse mais recente).

Procure projetos de turismo de base comunitária

O turismo de base comunitária se propõe como um contraponto ao turismo convencional como um modelo ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente diverso. Dentro dele, as comunidades locais que recebem os turistas têm total controle para planejar, executar e ser beneficiário direto da renda gerada, que passa a contribuir para melhorias nas comunidades e para a valorização das atividades tradicionais. São experiências menos “confortáveis” e mais imersivas – muitas vezes você dorme na casa dos próprios moradores.

No Brasil, há muitas iniciativas desse tipo de turismo, principalmente na região amazônica.
Vivejar – incentiva o turismo responsável, o empoderamento feminino e o impacto positivo nas comunidades em destinos como Amazônia, Vale do Jequitinhonha, Chapada Diamantina.
Braziliando – organiza vivências na comunidade Baré, na Amazônia.
Estação Gabiraba – faz roteiros de base comunitária no Amazonas e no Pará.
Pousada Uacari (AM) – uma das pioneiras do turismo de base comunitária no Brasil, atua totalmente integrada com a comunidade local.

Escolha empresas de turismo que tenham responsabilidade social e ambiental

Antes de contratar um tour ou agência, principalmente em um local de ecoturismo, se informe: ela transfere a renda de forma justa para a comunidade onde atua? Ela faz algum trabalho social de auxílio? O Lonely Planet costuma indicar empresas socialmente responsáveis. Essa matéria do The Guardian lista algumas empresas gringas. Se não souber, jogue no Google “socially responsible tour operator in…” ou “community based tourism in…” e veja o que aparece. No Brasil, procure as empresas de turismo de base comunitária.

Consuma em estabelecimentos locais

Essa é a dica mais simples de seguir pra uma viagem sustentável socialmente: em vez de tomar café no Starbucks, procure uma padaria local. Em vez de comer num restaurante de rede internacional, escolha o empreendimento de um chef da cidade. Em vez de comprar uma bugiganga (que provavelmente foi feita na China), busque artesões e designers nativos. Isso ajuda a alimentar a economia do lugar (ao invés de dar dinheiro para grandes corporações) e ainda torna sua viagem muito mais rica.

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Fique em hotéis independentes e/ou que adotem práticas sustentáveis

Se você se hospedar em um hotel de uma grande rede, é quase certo que boa parte da grana vai pra fora do lugar. Procure escolher pequenos hotéis independentes e familiares. Também é legal procurar hospedagens que adotem práticas sustentáveis, como reutilização de água da chuva e utilização de placas de energia solar.

Faça trabalho voluntário ou doe pra ONG’s locais

Procure ONG’s sérias que atuem em alguma causa que te mova para fazer uma doação. Ou pense em fazer um trabalho voluntário – há muitas furadas a cair nesse sentido, principalmente quando se envolve trabalhos com crianças, então prefira inciativas que foquem em coisas como construções de escolas ou casas e doação de comida.

Diminua seu lixo plástico

Veja documentários como o Oceanos de Plástico para se inspirar e repense cada plástico que você usa durante uma viagem. Começando pelo copinho do avião, que pode ser facilmente substituído pelo copo reutilizável da Menos1lixo – é só deixar sempre na bolsa. Junte a isso um “kit menos lixo“, que pode ter um kit de talheres, um canudo de metal e um pratinho ou tupperware. Durante a viagem, prefira consumir bebidas em latas ou garrafas de vidro, mais fáceis de serem recicladas. Para resolver o problema da garrafinha de água, você pode: 1) levar uma garrafinha de inox com você e encher sempre que tiver um filtro disponível (ou na pia, em países onde isso for ok); 2) investir em uma garrafa que é capaz de filtrar a água (é mais fácil comprar no exterior do que no Brasil, mas vale procurar).

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Outra questão importante em relação ao lixo é não se iludir com a coleta de lixo em cidades pequenas. A reciclagem já é feita em pouquíssima escala nos grandes centros urbanos, que dirá em pequenos vilarejos. Na paradisíaca ilha de Boipeba, na Bahia, por exemplo, alguns locais lutam para conseguir transportar o lixo reciclável para Salvador, mas a maior parte acaba num lixão na própria ilha. Ou seja: se você mora em São Paulo e acha ok tomar bebida de latinha porque sabe que muito provavelmente será reciclada, se for passar as férias em Boipeba saiba que lá a coisa não é bem assim. Leia mais sobre itens sustentáveis pra levar na viagem aqui.

Evite destinos que já sofrem com a superlotação e com a degradação do meio ambiente

Isso vai pedir um olhar bem consciente para a viagem que você quer fazer e uma dose de pesquisa. Por exemplo: será que é legal lotar destinos como Alter do Chão e Caraíva, há pouco tempo minúsculos vilarejos com dificuldade de acesso a energia elétrica, no Ano Novo? Será que é legal viajar em navios gigantescos que despejam milhares de pessoas ao mesmo tempo em uma ilha no Caribe ou mesmo em cidades como Veneza? Será que é sustentável visitar Koh Phi Phi, na Tailândia, onde 80% dos recifes de corais já foram destruídos pelo turismo de massa?

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Boicote atrações com animais em cativeiro

Segundo uma pesquisa da Universidade de Oxford realizada em 2015, cerca de 550 000 animais sofrem nas mãos de atrações turísticas irresponsáveis pelo mundo. Isso inclui zoológicos, aquários, centros para nadar com golfinhos comuns no México e no Caribe, lugares que deixam chegar perto de tigres na Ásia e até cavalos que puxam charretes em cidades como Nova York. Para evitar cair em um lugar desses desavisado, pode-se usar a lógica: só veja animais em seus habitats naturais, no máximo em parques nacionais e reservas ecológicas.
Para saber mais, veja:
Blackfish – documentário sobre crueldade com baleias em parques como o Seaworld.
Born to be free – documentário sobre captura ilegal de baleias na natureza para aquários.

LEIA TAMBÉM: As atrações turísticas mais cruéis com animais e como não corroborar com elas

Betina Neves

A jornalista é perita em traçar roteiros e vive na eterna busca pela passagem aérea mais barata. Escreve um e outro post por aqui enquanto explora o mundo dentro e fora de si. Pode ser encontrada em cachoeiras na Chapada dos Veadeiros, retiros budistas na Tailândia e montanhas na Califórnia.

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