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Roteiro pela Dordonha, na França, entre grutas pré-históricas, vilinhas e castelos

A 200 km de Bordeaux, a região da Dordonha é a síntese da França rural e bucólica, com vilinhas medievais castelos de contos de fadas rodeados por rios e bosques, vales verdes e comida tradicional.

Aqui vai um roteiro pela região conhecida como Périgord Noir a partir da cidade de Sarlat, onde estão uma série de cidadezinhas encantadoras com o título de as mais lindas do país e cavernas com pinturas rupestres.

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A Dordonha viveu sob o controle dos ingleses nos séculos 12 e 13 e por isso foi um dos palcos da famosa Guerra dos Cem Anos (1337 a 1453), que deixou uma porção de fortificações e castelos. Arrefecendo-se os conflitos, nos séculos 15 e 16, houve bastante desenvolvimento urbano na região, e a nobreza ocupou o interior com belos palácios e casas de campo. No século 19 e começo do 20 a região essencialmente rural viu um êxodo da população, que migrou para as cidades maiores. Com a descoberta da caverna de Lascaux em 1940, da qual vou falar mais abaixou, a Dordonha acordou para o turismo. A base para explorar a região do Périgord Noir (chamada assim pelas florestas de carvalho escuro) é a cidade de Sarlat-la-Canéda, ou só Sarlat, que fica a 200 km de Bordeaux e 400 km de Lyon. Se hospede pelo menos 2 ali para fazer bate-volta para as outras atrações da região.

A MELHOR ÉPOCA PRA IR A DORDONHA:

O ideal é visitar a Dordonha da segunda quinzena de maio à primeira semana de outubro, quando o clima é mais amigo. No frio as temperaturas são bem baixas, a paisagem não fica tão bonita e as cidades estão muito mortinhas.

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SARLAT

Sarlat é um vilarejo medieval da Dordonha fofíssimo com casinhas cor de mel, restaurantes gostosos, lojinhas que vendem produtos típicos das região (o polêmico foie gras e trufas negras, principalmente, mas também vinho, chocolates, azeites, etc). É maravilhoso ficar explorando seus becos, ruelas e arcos. Não perca a Cathédrale Saint-Sacerdos, a principal igreja da cidade, do século 13, com estilos misturados por causa das reformas que foram sendo feitas ao longo dos séculos. Atrás da igreja tem um jardim legal pra fotografar (às vezes tem gente tocando música ali) e a Lanternes Des Morts, uma capela sepulcral que se acende no cair do sol para supostamente guiar os mortos (antigamente tinha um cemitério ali).

O melhor dia para se estar em Sarlat é no sábado, quando acontece um grande mercado das 8h30 até às 18h na Place de la Liberté, a principal da cidade, cheio de comidinhas, flores e presentinhos em potencial. Todos os dias também rola um mercado coberto na antiga igreja de Sainte Marie, perto da praça. Tudo é tão lidinho que é difícil parar de fotografar.

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ONDE COMER EM SARLAT: De noite Sarlat parece uma cidade cinematográfica, com suas vielas semi-iluminadas. E jantar no Les Jardins d’Harmonie faz você se sentir parte desse filme, principalmente se nas mesas externas – se estiver frio eles oferecem cobertores. Tem menus fixos de
€ 17, € 39 e € 49. Quando estive lá comi trouxinha de pato picante, sopa de batata doce com pimenta da índia e baunilha, vieira com camarão e depois uma lasanha de foie gras. Também há opções vegetarianas. Peça um vinho da região pra acompanhar.

ONDE FICAR EM SARLAT: Eu me hospedei no Hotel Plaza Madeleine, uma quatro-estrelas instalado numa casinha histórica mas com o interior bem moderno, meio boutique. Os quartos são grandes e vêm com roupão e pantufas, o café da manhã é farto e ainda tem uma piscina linda com solário e spa com sauna. Fica no centrinho, então dá pra fazer tudo a pé. Diárias a partir de € 150, RESERVE AQUI!

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ROTEIRO PELA DORDONHA A PARTIR DE SARLAT:

Esse itinerário requer carro alugado, o melhor jeito de explorar a região da Dordonha com liberdade. Depois de uma tarde por Sarlat, reserve dois dias para os passeios a seguir.

DIA 1: Vale do Vézère: nesta área formada por penhascos de calcários, cavernas pré-históricas s e florestas densas está a maior concentração de pinturas rupestres da Idade da Pedra na Europa.

Saindo de Sarlat, observe o tempo: se estiver ensolarado vale fazer dos Jardins de Eyrignac sua primeira parada (são 14 km até lá). Na mesma família há mais de 500 anos, esta propriedade tem 10 hectares de jardins impecáveis que misturam estilos ingleses e franceses, entre esculturas de arbustos, canteiros de dálias e rosas, laguinhos, casinhas com trepadeiras, fontes e gazebos que rendem fotos lindas quando o céu está azul. Uma graça de lugar. E se a fome apertar tem um restaurante pra fazer um lanche (deixe pra almoçar mais tarde).

Dali, vá para o novíssimo Lascaux Centre International (27 km de distância), nos arredores do vilarejo de Montignac. Para entender o que é, você precisa saber a historinha: a caverna de Lascaux foi encontrada por dois adolescentes em 1940 com um incrível mosaico de centenas de pinturas e entalhes em pedra do Período Paleolítico, com até 20 000 anos, com tamanho e concentração jamais visto antes. Chamada de “Capela Sistina da Pré-História”, ela teve suas pinturas preservadas todo esse tempo porque a caverna ficou selada por rochas e terra provindas da erosão do terreno local. Diz-se que Picasso visitou as cavernas nessa época e saiu dizendo “Nós não inventamos nada”. Lascaux foi fechada à visitação em 1963 pela deterioração causada pela exalação do dióxido de carbono, e uma réplica, Lascaux II, foi construída 20 anos depois a 200 metros de distância. Mas a quantidade de pessoas indo perto da caverna original continuou a causar preocupações.

E aí no fim de 2016 eles inauguraram mais uma réplica, desta vez dentro de um museu enorme e megatecnológico que custou € 57 milhões. Ali dentro você participa de um caminho guiado por várias salas temáticas.

Tem um cinema 3D que mostra pinturas rupestres em cavernas do mundo todo, uma outra sala multimídia que explica cada uma das pinturas de Lascaux e a relação com a vida dos homens que as pintaram e um mirante que deixa ver o vale de cima. A fac-símile da caverna em si mostra pinturas grandes de cavalos, renas, cervos, bois e felinos grandes pintados de preto, vermelho, roxo e amarelo. O lugar tenta imitar a temperatura, a iluminação e até os cheiros e ruídos da caverna original, com uma atmosfera meio misteriosa. Apesar de obviamente não ser tão legal quanto ver pinturas originais (coisa que não dá pra fazer de qualquer jeito), o museu é grandioso e muito interessante.

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Segure a fome até chegar no Restaurant Le Bareil, a 7 km de Lascaux. Que pequena maravilha é esse lugar. É daqueles restaurantezinhos de estrada onde famílias que habitam aqueles vilarejos sonolentos vão almoçar de domingo pra comer comida de vó farta, bem-feita e fresca. Por € 25 o menu, vem um panelão de sopa, foie gras feito na casa, confit de pato, batatas sarladaises (cozidas na gordura de pato ou ganso) e mais um prato de queijos e geleias produzidos por ali. O tipo de lugar que você gostaria de encontrar em todas as suas viagens. E ainda tem produtos feitos na casa à venda pra levar de souvenir.

Restaurant-Le-Bareil

Se conseguir se mover da mesa, a próxima parada, a 18 km de lá, é a Roque Saint-Christophe. Esse lugar é mais interessante pela vista e pelas formações rochosas: é um penhasco de 80 metros com terraços e cavernas esculpidas que serviu de fortaleza natural desde a época dos neandertais até o século 16. Algumas ferramentas e reproduções de “móveis” tentam mostras como já foi a vida ali.

Na Grotte de Rouffignac, a 18 km de lá, você tem a chance de entrar numa caverna real oficinal. Enorme, essa gruta mergulha 10 km por um labirinto de túneis e poços que você explora num passeio de trenzinho elétrico (tipo aqueles que usam em minas). No caminho tem mais de 250 de figuras de animais (a maior parte são mamutes, pintados com traços pretos) com mais de 15 000 anos. Dali são 39 km de volta a Sarlat.

DIA 2: Vale do Dorgogne: entre as curvas desse rio estão colinas pontuadas por castelos e uma enorme concentração de vilinhas classificadas como “as mais belas do país” pelo governo francês (veja o mapa de todas aqui). A sensação é de estar em algum tipo de sonho medieval num lugar onde não mudou muita coisa nos últimos séculos.

Comece por Domme, um vilarejo fofinho a 11km de Sarlat pra caminhar pelas ruelas, admirar a vista e e começar a ter um gostinho da região. De lá, vá para Roque Gageac, onde casas estão em empoleiradas em cima do penhasco. Dali saem os passeios Gabares Norbert em barquinhos que imitam os usados antigamente nessa região que viajam pelo rio por 55 minutos. O caminho curto deixa ver margens dominadas por florestas e rochedos onde aparecem torres de fortes e castelos como o Châteaus de Malatrie e o Château de Marqueyssac, até atravessar uma pontezinha e ver o grandioso Château de Castelnaud (o passeio custa € 9,50, mande um email pelo site pra reservar). De volta ao vilarejo, suba pelos degraus do penhasco para explorá-lo um pouco. Tem um jardinzinho no Bambousaie de la Roque-Gageac. Eu comi no restaurante Belle Etoile, que tem um salãozinho aconchegante e um bom cordeiro com funghi.

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Saindo de lá, visite o Château de Beynac, um castelão do século 12 daqueles com cara de fortificação medieval (de fato ele teve papel-chave na Guerra dos Cem Anos). Com um guia, você passeia pelos cômodos, galerias e escadarias, até dar nas muralhas e na vista vertiginosa que desponta delas para a região da Dordonha. Abaixo do castelo, uma trilha íngreme leva até Beynac-et-Cazenac, outra vilinha linda (ode curiosamente foram feitas cenas do filme Chocolate, aquele com a Juliette Binochet). Lá de baixo a vista para é rio é uma lindeza.

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Se quiser fazer um jantar reforçado em vez de um almoço, continue até o Domaine du Château de Monrecour, um castelo/hotel (aliás, se você quiser se hospedar num castelo, tem um monte por aqui, e não custa caro) no topo de uma colina. O restaurante, com paredes envidraçadas que dão num pequeno vinhedo, tem menu com 3 pratos a partir de € 28.

A autora

Betina Neves

Betina Neves

Editora do Carpe Mundi, viaja pra trabalhar e trabalha pra viajar. É jornalista freelancer e já escreveu pra Viagem e Turismo, ELLE, Claudia, Vamos LATAM, Superinteressante, Cosmopolitan, VEJA São Paulo, Folha de S. Paulo, entre outras publicações.


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Há 2 comentários para “Roteiro pela Dordonha, na França, entre grutas pré-históricas, vilinhas e castelos

  1. Oi, em nossa lua de mel, 24 anos atrás estivemos numa cidadedezinha que tinha uma gruta/caverna que descia muito por um caminho (época moderna) e tinha uma apresentação de como era na época.Eles apagam tudo lá dentro e vai descendo um cestinho
    Essa gruta é cheia de estalactites
    Será que tem idéia qual pode ser?
    Há 24 anos não existia celular pra registrar as coisas…
    Queremos voltar com nossos filhos mas não lembramos o nome nem a região direito, apenas que era “próximo” a St Emilion, a Bordeuax
    Obrigado!!!

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